A maternidade narcísica patológica
28 Jan, 2026
Determinados momentos culturais podem dar alusão a etapas de desenvolvimento emocionais do ser humano com estruturas que são possíveis recorrer à psicanálise para explicar. Possível porque existe um viés emocional na qual sustenta toda uma estrutura de pertencimento e apego a um território geográfico que pouco de aborda. Afetos são construídos no sujeito (sim, me refiro a desejos construídos e não a desejos natos) de modo que uma relação materna se cria entre o sujeito e a pátria. Há um nascimento, uma concepção, um compromisso de acolhimento em troca de amor, submissão e servidão. E esse momento está em conflito dentro do brasileiro. É como se a cultura brasileira estivesse na época da revolta do adolescente. Igualmente pose ser um equívoco, pensar que na adolescência, a rebeldia não tenha uma causa.
O Brasil é uma (ainda que a palavra remeta à raízes paternas) pátria mãe narcísica patológica e se comporta como tal:
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é abusiva com seus filhos
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tem um passado de abusos
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vive de aparências
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não cumpre aquilo que promete com seus filhos
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procura amenizar e pouco se importar com os momentos de sofrimento de seus filhos
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cria constantemente um ambiente de mentiras
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apresenta a ausência de escrúpulos
São metáforas obviamente, mas que estranhamente se confundem e se assemelham ao histórico familiar que tem um potencial gerador de mães narcísicas patológicas. Desde o nascimento/descobrimento, me refiro a que essa pátria mãe se fez dentro de um ambiente de exploração, abusos e consequente abandono. Uma pátria mãe que se construiu imersa em violência, abusos e violações de todas as espécies. Nunca foi vista com afetos e expectativas de acolhimento e desejo e sim de exploração.
Por isso vejo que o fruto de uma relação como essa, resulte em conflitos tão correlacionados e seja o pilar da maneira de como a cultura brasileira é hoje e acometa às pessoas esse sentimento de falta de amor, de carinho e de cuidado. Está estabelecida uma relação calcada na mentira, no falseamento, na hipocrisia das condutas e na quebra de confiança quando se espera um mínimo de reciprocidade ao longo da criação dos “filhos”. Pois bem, tal como na adolescência é chegada a hora em que as mentiraras ficam difíceis de serem sustentadas na manutenção e execução desse acordo inicial e a relação de abuso se mostra da maneira mais crua e descarada. Como não ser rebelde? Como não sentir raiva, ódio e desapontamento por essa mãe pátria?
Muito se coloca em evidência a questão política no momento atual e pouco se toca na questão emocional da cultura brasileira como agente de interferência nas atitudes e nos pensamentos do brasileiro. Me refiro àquele momento no qual soa o hino nacional, maior momento de expressão de amor à essa pátria mãe, e meu questionamento é saber qual é a reação hoje em dia. Ainda existem afetos capazes de desencadear amor? Minha visão é de filhos abandonados, enganados por uma criação hipócrita e hoje furiosos e desejosos de mudança nessa relação narcísica patológica. Patológica e perversa porque visa na satisfação libidinosa de apenas um lado, numa relação utilitária do outro que vai ser jogado fora quando não houver mais o que aproveitar deste. Vejo brasileiros rejeitados por essa mãe pátria que não lhes provê carinho, cuidados, suporte e proteção.
Um sentimento de abandono a cada pedido por cuidados (educação, saúde e segurança por exemplo) que não são atendidos em uma clara atitude de descaso e pouca importância.
Em algum momento era de se esperar uma atitude de revolta quando se confronta a realidade de outras pátrias mães e a maneira como seus filhos são tratados. Respeito, cuidado, reciprocidade, atenção, acolhimento … tudo o que um filho deseja do relacionamento com a sua mãe. Um convívio mais próspero, ameno, cheio de perspectivas, sonhos e esperanças.
Mas aquela revolta é também escamoteada pelo fato de que em parte carregamos e somos o ambiente ao qual fomos criados. Se viemos de um ambiente sem confiança, possivelmente somos filhos pouco confiáveis. Se viemos de um ambiente pouco amoroso, somos filhos sem a capacidade de amar. Cada qual oferece aquilo que tem. E um círculo vicioso se instala onde desamor gera mais desamor.
Por sorte temos a subjetivação nos processos onde toda regra tem uma exceção e uma flor pode nascer em pleno asfalto… e ter capacidade de mudar os rumos de um relacionamento tóxico. Quando um filho decide não seguir os exemplos de sua pátria mãe e fazer diferente, ser tudo aquilo que ele gostaria de ter tido ao invés de replicar o padrão em clara identificação materna. A mudança é possível.