O paciente fala deitado no divã e o analista só escuta, sentado numa poltrona confortável. Clichê no cinema, a cena nem sempre é exatamente essa nos consultórios. Aqui, toda a verdade sobre o folclore que envolve essa relação tão delicada 

Todas as terapias têm a mesma meta: lidar com a angústia e com o sofrimento, ajudando o paciente a ser mais feliz e a encontrar um sentido para a vida. Mas cada modalidade busca esses objetivos à sua maneira — em alguns casos, a pessoa vai dramatizar e reviver situações pelas quais passou; em outros, vai tentar desatar nós desbloqueando tensões físicas. 
Na psicanálise, a fala é o fio condutor de um processo de autoconhecimento. Tudo começou com Freud, no início do século passado: ao receber pacientes que já tinham consultado todos os médicos de Viena, sem sucesso, Freud percebeu que o ato de falar, sendo ouvido por alguém, era terapêutico. Mais do que isso, esse discurso podia trazer à tona conflitos que estavam em outro lugar, além da mente racional —a esse lugar, ele deu o nome de inconsciente. “Uma parte da mente à qual não temos acesso, mas que é capaz de produzir efeitos, como neuroses, angústias e sintomas físicos”, explica a psicanalista Mania Deweik, de São Paulo. 
A seguir, três especialistas falam sobre os mitos que cercam o assunto, mostrando que muito do que se diz sobre a psicanálise é um exagero.

1. O psicanalista nunca fala durante a sessão
“Eu falo e escuto, ensino, aprendo e também me divirto com meus pacientes”, diz a psicanalista Mania Deweik. Segundo ela, talvez esse mito tenha surgido quando a obra de Freud foi traduzida do alemão para o inglês. “Ele escrevia de maneira literária, inspirava-se nos poetas, na tragédia grega, e seus discípulos ingleses entenderam que era preciso dar uma forma mais científica à sua teoria. Esse pode ter sido um dos fatores que contribuíram para a idéia de neutralidade.”
Na prática, existem psicanalistas que mantêm uma atitude mais sisuda. “É uma questão de estilo pessoal. Tem que seja mais reservado e há os que são expansivos. Mas isso não é uma regra da terapia”, diz o psicanalista gaúcho David E. Zimerman.

2. Para ter resultado, é preciso fazer terapia durante muitos anos
Na época de Freud, os tratamentos terminavam em meses. Mas, ao longo das décadas, a psicanálise se desenvolveu como um processo que dura anos. Hoje a prática não corresponde a nenhuma das duas alternativas. “A psicanálise não pode ser definida como um tratamento breve, porque exige um tempo de elaboração, e esse tempo varia de pessoa para pessoa”, diz a psicanalista Dulce Barros, de São Paulo. Na sua clínica, o usual é começar com duas sessões semanais, que podem se reduzir a uma, e o tratamento dura, em média, de três a cinco anos. Segundo Mania Deweik, o tratamento pode parecer longo para quem busca resultados imediatos contra a tristeza, o medo, a ansiedade. “Mas crescer não é um processo instantâneo. E, além disso, cada paciente tem sua história e seu ritmo”, diz Mania.

3. A análise é um tratamento caro
A idéia de um tratamento elitizado, que só acontece entre quatro paredes e com um paciente pagando por infinitas sessões, já não corresponde à realidade. “A psicanálise está nas creches, nos postos de saúde e nas instituições de saúde mental”, explica Mania Deweik. O psicanalista David Zimerman afirma que a maioria das sociedades psicanalíticas mantem serviços ambulatoriais, com preços acessíveis à população. “Além disso, é normal analista e paciente conversarem e negociar a questão do
dinheiro”, diz Dulce Barros.

4. O paciente fala o tempo todo do passado, da mãe e do pai
É importante trazer do passado as situações que continuam a perturbar ou a se repetir no presente, mas isso não significa que a análise vá girar em torno disso.“O único passado que interessa é o que não foi suficientemente elaborado, isto é, entendido e aceito. Por isso, continua incomodando o paciente”, explica Mania.
Segundo Zimerman, o assunto de cada sessão fica a critério do paciente —é comum que a pessoa fale sobre situações cotidianas, ligadas ao trabalho ou à família. Mas, através desses temas que fluem espontaneamente, muitas vezes é possível fazer uma conexão com situações similares que já aconteceram. “Essas associações trazem compreensão. É o que tecnicamente chamamos de “insight”. Nesse momento, o paciente se dá conta de que está agindo de determinada maneira porque tende a reagir da mesma forma. São jeitos de se comportar ligados a traumas ou relacionamentos antigos”, explica o psicanalista.

Como saber se está funcionando?
Ao longo do tempo , o paciente tem condições de saber se a terapia está surtindo efeito. Segundo os especialistas, é normal sentir um certo incômodo em alguns momentos e resistir às colocações do analista. Mas, se esses sentimentos persistem, é bom refletir sobre o que está acontecendo. “Quando não há empatia entre o paciente e o analista, por exemplo, o tratamento não evolui”, explica a psicanalista Dulce.
Na prática, dá para se auto-avaliar a partir de situações cotidianas: o paciente que não falava em público de jeito nenhum pode comemorar como um grande passo o fato de enfrentar cinco minutos de exposição durante uma reunião de trabalho. “Da mesma forma, quem antes evitava conversar com qualquer autoridade, com medo de críticas, vai se sentir fortalecido quando puder encarar esses contatos com naturalidade, sem insegurança”, explica Mania Deweik. Segundo ela, um dos bons efeitos da análise é fazer com que a pessoa se questione em cada situação, buscando saber por que reage de um jeito e não de outro.

5. Tudo o que a pessoa faz tem a ver com sexo
Segundo David Zimerman, essa falsa crença tem origem no próprio Freud, que relacionava todas as angústias e sintomas a algum problema sexual. “Hoje essa visão se justifica só em certos casos. Na maioria das vezes, há outros aspectos a considerar e que são mais importantes do que as questões ligadas ao sexo”, explica o psicanalista. A questão é que, para Freud, o conceito de sexualidade ia muito além do ato sexual genital, incluindo várias outras manifestações prazerosas. “Nesse contexto, o sexo não deve ser entendido como relacionamento homem-mulher, mas como todas as experimentações ligadas ao prazer”, explica Dulce Barros.

6. Muitos pacientes se apaixonam pelo psicanalista
“Pode acontecer. Mas essa “paixão” tem muitos coloridos, não só o do desejo sexual. Pode ser uma transferência da imagem da mãe, da amante, da competidora... Importante é que isso seja analisado como qualquer outra fantasia”, explica Mania. Para Dulce, muitas vezes esse jogo de sedução esconde apenas uma outra forma de resistência. “O paciente imagina que, se encantar o médico, vai ser menos censurado.” Nessa situação, o papel do psicanalista é decisivo. “Ele vai, sim, lidar com os sentimentos do paciente, mas não pode ficar envolvido com ele”, explica Zimerman.

7. O paciente não pode saber nada sobre o seu psicanalista
Freud atendia em sua própria casa, sob o mesmo teto em que moravam os oito filhos, a mulher e a cunhada. Portanto, a idéia de total neutralidade do profissional não tem nada a ver com ele, mas com a interpretação que seus seguidores fizeram de sua teoria. “Acredito que é preciso estabelecer limites, mas existem formas de olhar para isso. Cabe ao analista definir até que ponto a curiosidade do paciente é normal e a partir de que momento isso se transforma em mais um problema a ser trabalhado”, explica Zimerman.
Em uma relação tão íntima, muitas vezes o paciente passa a ver seu analista como um amigo, com quem gostaria de, por exemplo, poder sair para tomar um café. “Mas é importante preservar a cumplicidade que se conquistou dentro do consultório. Por isso, a relação não deve mudar de formato”, explica Mania.
Segundo ela, não há hierarquia, mas o relacionamento não é de igual para igual. “Um fala e o outro escuta, as posições que as pessoas ocupam são diferentes. Essa não é uma relação entre amigos”, conclui Mania.

8. É obrigatório deitar no divã
O que define a análise não é o divã, mas a escuta do analista.
Todos concordam, porém, que o divã pode facilitar. “Freud atendia até 15 pessoas por dia. Não é fácil ficar submetido ao olhar do outro durante tanto tempo, tentando, ao mesmo tempo, captar o que aquela pessoa está dizendo”, diz Mania. Apesar disso, os pacientes ficam à vontade para ocupar o espaço que desejam em seu consultório. Para o psicanalista David Zimerman, a pessoa fica livre para decidir. “Mas considero uma conquista do paciente quando ele decide fazer análise deitado. Isso apenas demonstra que ele sente confiança e não tem necessidade de tentar controlar seu analista”. Isso também não é obrigatório para a psicanalista Dulce Barros, mas ela admite que a terapia flui mais tranqüilamente com o paciente deitado. “Quem usa o divã geralmente está relaxado e menos defensivo.”

9. O psicanalista interpreta os sonhos
O sonho é um dos caminhos de acesso ao inconsciente e auxilia o trabalho de análise. “Mas é o paciente que traz associações relacionadas ao sonho”, explica Dulce. O analista ajuda e estimula a pessoa a fazer as suas próprias interpretações. “Não se trata de um oráculo, alguém que está dizendo algo que o outro não sabe... Na prática, o analista só junta aquilo que o paciente está próximo de descobrir por si mesmo”, explica Mania. Richard Gere interpreta o paciente e Lena Olin, a analista em “Mr. Jones”

10. É muito fácil enganar o analista
Mesmo que o paciente minta, o analista tem como conduzir bem o tratamento. Na prática, isso não chega a ser importante, já que o analista não está preocupado com a veracidade dos fatos, mas com a forma como a pessoa conta suas verdades e também suas mentiras. “Mesmo que seja falsa, a história sempre vai ter a estrutura e o jeito de ser daquela pessoa. E isso é revelador”, diz Mania.
Para Zimerman, também é importante que o analista assinale, em algum momento, que o paciente está mentindo para si mesmo em primeiro lugar.

(Extraído do livro “Psicanálise em Perguntas e Respostas – Verdades, Mitos e Tabus”, de David E. Zimerman, Editora Artmed, 320 págs., R$ 64)

Veículo: Época
Seção: Saúde
Data: 25/11/2005
Estado: Nacional

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