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Psicanálise na língua materna ou pátria: Faz sim diferença. 28 Jan, 2026
Fabio Alves

Psicanálise na língua materna ou pátria: Faz sim diferença.

Os maiores pensadores, pais da psicanálise, são quase todos alemães. Um caso prático, fruto da minha própria experiência de vida, me mostrou que apenas o conhecimento da psicanálise em si não é suficiente quando falta vivência e conhecimento do meio onde o paciente desenvolveu sua base de valores.

    Foi no auge da juventude e plenitude física que fiz minha primeira viagem à Europa. Na década de 90, não era ainda tão comum ver brasileiros fazendo turismo no exterior, e acredito que foi o fato de sermos vistos por lá raramente que resultou no caso pessoal que narro agora.
    Saí do hotel com meu marido logo pela manhã para uma caminhada pela cidade. Nos primeiros passos percorridos já bateu um desconforto: As pessoas olhavam insistentemente para mim. Fiquei sem saber o que havia de errado. Meu vestido não era curto, chegava a cobrir os joelhos, e com a bota de cano alto não se via um milímetro das minhas pernas. Também não era justo nem decotado, não havia nada que ferisse os padrões da decência. Mas os pescoços continuavam a se voltar para mim. Conferimos outra vez: Minha roupa não estava rasgada, não tinha mancha de catchup, não tinha brilho, nada estranho. Como a situação incomodava, decidimos voltar para o hotel e perguntar para a recepcionista o que estava errado.
“Por quê? Estão olhando muito para você?” - Ela perguntou.
Sim, era isso. Estavam olhando muito para mim.
“É que você é jovem e muito bonita, vão olhar mesmo porque sua beleza é diferente do padrão europeu. Vai ter que se acostumar a ser admirada por aqui”.
Ouvir isso era sensacional, mas não dava para botar fé. “Bonitinha” até faria sentido, mas não havia nada em mim que me tornasse o tipo de sumidade estética que produzisse aquele efeito. Cabelos escuros, pele nem clara nem escura, olhos nem claros nem escuros… Mas ela estava certa: Por lá uma magia acontecia e eu parecia colocar Claudia Schiffer no chinelo.
Confesso que não achei ruim a novidade. Nos restaurantes, na rua, em toda parte diziam ao meu marido que eu era “muy guapa” na Espanha, “belle feme” na França, “schone frau” na Alemanha… até voltar ao Brasil e recuperar a paz dos não avassaladores.
Conto isso para facilitar o entendimento do que se passou quando um professor alemão, sumidade da Psicanálise, veio ao Brasil e um psicanalista amigo meu me conseguiu uma vaga para uma sessão, algo que seria incrivelmente bom para os meus estudos na área. Começamos a sessão e meu amigo ia traduzindo minhas falas para ele e as dele para mim. Mas a coisa não fluía. Mesmo com a tradução correta, parecia que estávamos falando idiomas diferentes num sentido mais amplo. O desconforto foi aumentando, as falas dele não faziam nenhum sentido para mim e as minhas pareciam não fazer nenhum sentido para ele. Até o momento em que ele deu a entender que minha aparência era um fator de desafio nas minhas relações profissionais. E quando eu neguei que isso existisse, por ser uma pessoa de aparência comum, ele me alertou que a Psicanálise não funciona sem a franqueza do paciente.
     Foi quando meu amigo tradutor sorriu e falou que aquilo não estava funcionando. E me explicou que estava nítido que o professor me via como dotada de uma beleza singular, que afetava minhas relações. Rimos muito, o tradutor e eu. Ele pela liberdade de não precisar camuflar o fato de que em terras brasileiras eu não limparia a poeira dos pés de Claudia Schiffer, eu por já entender que as brasileiras, com essa mistura de genética indígena, africana e europeia, produzíamos mesmo tal efeito nos estrangeiros. Não sei se hoje já não impactamos tanto por estarem acostumados com nossa presença ou se a passagem do tempo me tornou menos impactante. Embora a segunda possibilidade seja obviamente uma certeza,  o brasileiros viajando ou morando no exterior deixou de ser novidade. Por sorte a Internet reduziu distâncias e a terapia online tem sido uma ferramenta e tanto para terapias, evitando que barreiras culturais e de valores interfiram no processo.
    Enfim… não pude aprender muito sobre a Psicanálise naquela ocasião, mas tive uma prova incontestável de que entender os valores, a cultura, as singularidades das raízes do paciente faz toda a diferença.
     Há muitos casos de tratamentos que rompem a barreira cultural e o idioma com ótimos resultados. Mas o fato é que “Te quiero” não tem o peso de um “eu te amo”, “I miss you” nunca será “saudade”, e o “ato falho” é a ferramenta primordial da psicanálise.
Embora não possamos generalizar, uma terapia na língua pátria liberta o cérebro do campo racional e permite viajar mais livremente para o inconsciente. E é aí que a mágica acontece!
   

Miriam Moraes é psicanalista e atende online a clínica virtual www.aterapiaonline.com.br
Para agendar sessões acesse o link: https://aterapiaonline.com.br/index.php/pt-BR/agendar-consultas/agendar-sessao-n.html